31 outubro 2014

Inclassificável - Somos




O adolescente vai ao dermatologista com a mãe. Com o rosto coberto de espinhas, a voz desafinada e os braços que de repente cresceram depressa demais, o rapazinho senta-se em frente ao médico e é indagado sobre o que lhe incomoda. Antes que abra a boca e pronuncie qualquer palavra, a mãe se adianta e interrompe: "Sabe o que é doutor? Ele está incomodado com isso e aquilo, e então se sente assim e assado e isso atrapalha aqui e ali..."

(...) O médico se perde nas palavras da mãe, ensurdece diante de sua versão detalhada do filho, e olhando o garoto com o canto dos olhos sente compaixão e empatia pelo rapaz _ não exatamente por causa das espinhas...

A mãe _ com a melhor das intenções _ acredita conhecer o filho mais do que ele mesmo.

Classifica-o como tímido, incapaz de retratar seus problemas, imaturo e até um pouco fraco. 
Faz seu diagnóstico, assina e carimba.
O menino cresce acreditando na versão da mãe. Sem perceber, aceitou a máscara que ela gentilmente lhe ofereceu. Em troca, ficou dependente de sua aprovação, de seu "sim" silencioso e cheio de significados.



Infelizmente nos habituamos e permitimos ser classificados. Ouvimos o que os outros têm a dizer sobre nós e acatamos os papéis. Não ousamos duvidar do veredicto, não questionamos remover as máscaras _ nem quando pesam sobre nossa realização.



                             Desejo ser como Ney Matogrosso _ INCLASSIFICÁVEL.



Que não julguem nem classifiquem minha personalidade, não elaborem diagnósticos a meu respeito;

Que me permitam ser conhecedora de mim mesma e nunca rotulem ou idealizem minha natureza;
Que me aceitem, não tentem me transformar no que lhes satisfaz mas me rouba de mim;
Que entendam minhas mutações e permitam minha evolução;
Que não acreditem naquilo que vêem com os olhos _ O essencial é invisível...
Que não haja sofrimento perante meu mistério, minha introspecção...
Que tolerem o que há de mais belo em mim: minha singularidade. O instrumento único que sou e que dá sonoridade à orquestra;
Que respeitem minha alegria camaleônica, meu humor de fases;
Que minha aparência não seja motivo de discórdia, que aceitem meu cabelo oscilante de acordo com a previsão do tempo e as fases da lua;
Que eu não seja exorcizada toda vez que infringir regras sem sentido ou transgredir modelos pré-fabricados;
Que eu possa silenciar de vez em quando e perder o juízo invariavelmente...


Acima de tudo peço que não me idealize, pois terei que ser perfeito para você e o medo de te decepcionar me afastará de mim... (essa para mim é a melhor)


Não projete seus sonhos em mim, a realização é pessoal e intransferível...

Num mundo bombardeado por clichês e estereótipos, seres etiquetados e padronizados, ser livre requer luta e empenho. Empenho diário em ser fiel ao que existe por trás das máscaras.
Ao classificar a realidade, as pessoas e as coisas, colocamos tudo dentro de pequenos cativeiros. Construímos prisões para os outros e nos encarceramos também. Criamos limites, celas, grades que nos separam daqueles que julgamos diferentes, e portanto, impróprios para o nosso convívio.
Etiquetamos nossa cor, nosso colágeno, nossa posição social, nossos bens, nossa reputação, nossa opção sexual "normal", nossa religião perfeita, nossa família ajustada, nosso partido político coerente.

Não permitimos mudanças, ponderações, diferenças. Somos intolerantes com quem fica "em cima do muro" _ como se parar para pensar fosse crime...

E assim vivemos, seres perfeitos, imutáveis, imaculados, acima do bem e do mal.
Subimos em nossas torres e lá observamos o "mundo perdido", sem perceber que perdidos estamos nós, solitários em nossas celas, aprisionados em nossas máscaras e cheios de "opiniões"...

Somos o que somos, INCLASSIFICÁVEIS


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